Se desde aproximados anos 10 o anúncio do Xarope São João já proclamava “larga-me, deixa-me gritar”, sugerindo a tosse como o mal e o remédio como o bem, não é difícil entender porque brasileiro gosta tanto de um remedinho aqui, outro ali. O marketing da dor não deixa dúvidas do seu interesse em flagrar os leigos e acometidos pela dor. O uso irracional de medicamentos é o resultado da herança cultural em se automedicar e do alto investimento em marketing e em propaganda pela indústria farmacêutica. Se antes para eliminar a dor de cabeça o chá da vovó com o tal analgésico era o mais indicado, a prescrição de hoje não mudou muito, um coquetel de medicamentos é ingerido diariamente e comprado de maneira indiscriminada pelas pessoas em drogarias. Para dor de cabeça, o analgésico que promete sumir com a dor num piscar de olhos seria o mais indicado; para a dor de estômago, é melhor o “tomou, passou”; já para a tosse que tanto irrita a garganta e atrapalha a vida das pessoas, que tal o tradicional Xarope São João?; gripe? As opções são tantas que chega a dar um nó no pensamento: qual escolher? Talvez seja melhor ficar com Aspirina, que desde 1912, por meio do fabricante alemão Bayer, se destaca no Brasil com a forte presença na mídia. Mas se o problema é fraqueza e indisposição, o indicado seria o Biotônico Fontoura, que desde sempre levantou os fracos e debilitados, até levantou o Jeca Tatuzinho, de Monteiro Lobato. Promessas. A indústria farmacêutica sempre prometeu o que quase nunca pode cumprir.
Mas bem antes dessas promessas “rotuladas”, da forte presença da indústria, lá em 1840, se lia no Jornal do Commercio:
“Curam-se dores, zunidos e surdez antiga de ouvidos, ainda que tenha anos, também asma, defluxo asmático, solitária, hemorróidas, erisipelas e escravos viciosos de comer barro ou terra, ainda que já estejam opilados; assim como os viciosos de bebida: quem quiser utilizar-se dos préstimos acima dirija-se à Rua do Parto, 93.” (Bueno, Eduardo, 2008)
“Pode-se afirmar, portanto, que, antes do advento da propaganda de medicamentos propriamente dita, o Brasil vivenciou um preâmbulo – uma espécie de “pré-história” –, caracterizada não pela publicação de “reclames de remédios”, mas por anúncios de “curandeiros”. (Bueno, Eduardo, 2008)
De curandeiros para benzedeiras, de manipuladores no fundo das casas ao chazinho da vovó, das garrafadas aos conselhos de amigos e familiares. E médico que deveria prescrever medicamento, nada. O caos na saúde, a escassa comunicação interpessoal médico/paciente faz com que o doente procure as mais diversas maneiras de se curar. E tomar remédio sem saber o que está ingerindo é a principal delas. O Brasil é um dos primeiros do ranking de automedicação. E morre mais gente de intoxicação por ingestão de medicamentos do que por muitas doenças conhecidas. O que difere medicamento de veneno é a dose. Ou seja, sem informação, sem médico, não se pode tomar remédio e ponto.
O brasileiro sempre se automedicou. O que ocorre é que com tanta farmácia, drogaria, com tanto acesso, o uso irracional de medicamentos passou a fazer parte da vida do cidadão. Algo comum. Compra-se antigripal como se compra pão. Aliás existem mais farmácias do que padarias em algumas partes do país.
O xarope Bromil, durante muito tempo prometeu curar a tosse em 24h e o tônico Saúde da Mulher, mais do que um regulador que assegurava combater todos os desconfortos da mulher, passou a ser o libertador feminino. Bromil foi também o amigo do peito dos poetas, que por longo período serviram à propaganda brasileira como redatores publicitários. Olavo Bilac, grande escritor, chegou a dar um depoimento favorável ao medicamento, testemunhando em anúncio de revista o consumo de Bromil.
Ou seja, o ontem e o hoje na propaganda de medicamentos são recheados de aspectos históricos, culturais e sociais. Uma busca infinita das pessoas pela cura e um interesse infinito da indústria farmacêutica em oferecer o medicamento que promete a tal cura. No meio disso tudo, órgãos fiscalizadores e moralizadores da Saúde e da Comunicação não conseguem fiscalizar as mensagens abusivas nas propagandas nem combater o excessivo uso de medicamentos e, acabam por nomear os brasileiros de hipocondríacos. A vítima passa a culpado e os remedinhos continuam a ser vendidos e consumidos em dose exagerada. O, aparentemente inofensivo, medicamento para dor de cabeça pode dar uma tremenda dor de cabeça. E por falar nisso, o que você anda tomando? Coisa com coisa é assim, ajuda você a refletir antes de ingerir o próximo comprimido.
maio 22, 2009 às 6:18 pm |
bons tempos eram os do aas infantil… praticamente um dessert…
junho 17, 2009 às 8:20 pm |
Olá Paula Renata!! meu nome tbém é Paula, e gostaria muito de poder me comunicar contigo por e-mail… Estou desenvolvendo um trabalho de mestrado que versara´sobre propagandas e rótulos de remédios… deves entender o meu interesse em falar contigo, né?
queria ter acesso a tua dissertação e tese… por favor, se puderes me escreve que te retorno!
um abraço e obrigada
paula
setembro 21, 2009 às 5:08 am |
Nossa! AAS infantil era uma delícia! (pode?!). Amei seu blog prof! Vou linkar ao meu, pode? Amei o post tb, minha irmã tem essa mania de se auto medicar e de certa forma já se tornou ‘dependente’ de anti gripais. E olha, perto da minha casa tem mais farmácias do que padoca, sim! Rs… Ah! Vale lembrar (assunto nada a ver): Fest Up rolou esse fim de semana e tem fotinhas no flickr. Essa semana posto alguns vídeos no blog! Se quiser conferir passa lá: http://www.flickr.com/photos/72893884@N00/sets/72157622297504807/
Bjos!
maio 18, 2010 às 1:31 am |
Dorflex, calminex. Ótimo texto, Paula!
Bjobjo